A vida só tem sentido se você toca o coração das pessoas

Postado por Ana Paula
11:50 - 26/05/2019

Feche os olhos agora. O que vem à sua mente quando você pensa na palavra acolhimento? Pra mim, vem à lembrança do colo de mãe na infância, nos momentos em que levei susto, tive um pesadelo, adoeci ou ralei o joelho. E ela estava lá para me acolher nos seus braços e dizer que estava tudo bem.

 

Mas será que essa necessidade de afeto, aceitação e pertencimento habita apenas o imaginário infantil? Ao contrário! Ser acolhido está entre as necessidades sociais  básicas do ser humano. Basta lembrar qual a sensação daquele abraço gostoso de reencontro, daquele olhar de cumplicidade num momento difícil e de compartilhar a torcida apaixonada pelo time do coração.

 

Todos nós queremos ser acolhidos. Mas esse abrigo parece cada vez mais raro no mundo. Quando acompanhamos os noticiários, vemos crianças sem lar, idosos maltratados, animais abandonados, jovens se matando por motivos fúteis, excesso de angústia que leva à depressão e ao suicídio. Parece que o modus operandi da humanidade está pautado numa atitude defensiva e agressiva. Há um sentimento de desumanização no ar, de coisificação do outro.

 

Outro dia conversando com uma bancária, ela me relatou a triste experiência do reencontro com uma amiga de infância. Ambas ficaram realmente felizes com o acaso e começaram a relembrar os tempos da escola. Mas, de repente, a amiga pegou seu smartphone e começou a olhar as mensagens. Até então, parecia que era algo urgente, mas o tempo foi passando e, entre uma conversa e outra, ela olhava o celular e sorria ao ler algo, como que abduzida pelo equipamento, escrava da internet. Aquela atitude a incomodou profundamente e ela encerrou a conversa e foi embora. Até agora ela ressente da falta de acolhimento. Consciente ou inconscientemente, qualquer um de nós pode repetir esse comportamento, tão comum nos dias de hoje. Já parou pra pensar nisso?

 

Acolher é o inverso de não se importar. Será que estamos acolhendo as pessoas ao nosso redor? Você consegue perceber o que está por trás das aparências? Consegue dar atenção verdadeiramente, de modo que o outro se sinta à vontade para abrir o coração pra você?  O acolhimento é mais que receber bem uma visita ou fazer trabalho voluntário com moradores de rua e viciados. Passa pela escuta atenta, pelo olhar profundo, pelo sorriso sincero, pelo aperto de mão firme, pelo abraço aconchegante e apertado, e até por uma oração. É o jeito como você se aproxima de alguém ou se deixa aproximar. É como se você simplesmente abrisse os braços no momento em que a pessoa mais precisa, sem necessidade de uma palavra sequer.

 

Quando um novo funcionário chega na sua agência, cheio de medos e ansiedade, o que você tem feito por ele? Quando um subordinado faz algo errado e você percebe na fisionomia a culpa que ele está sentindo, como você age? Quando seu filho chega em casa e bate a porta do quarto irritado por algum motivo, como você tem iniciado um diálogo? Coloque-se no lugar do outro e imagine qual a seria a sua sensação se recebesse um bilhete ou ouvisse uma frase do tipo: “Está tudo bem. Acolha esse sentimento que está no seu coração e saiba que eu estou aqui para o que você precisar, pra superarmos juntos seja o que for”. É uma simples atitude capaz de aquecer a alma de alguém, concorda?

 

Todos precisamos dessa compreensão, dessa sensação de não estar sozinho, de saber que pode contar com alguém. Mas a gente só sente verdadeiramente isso quando é algo genuíno. Não dá pra fingir acolhimento.

 

Se você quer ser esse porto seguro como líder, como pai ou mãe, como colega de trabalho, precisa desenvolver a empatia e a sensibilidade, sair da zona de conforto e se permitir ir além do que é familiar, para poder lidar com as diferenças do outro, sem emitir julgamentos ou juízo de valor. Exige também um certo desapego do excesso de camadas de proteção para sentir verdadeiramente afeto pelas pessoas.

 

Há um poder extraordinário nisso! Crianças que crescem em ambientes acolhedores são mais saudáveis e amorosas; equipes de trabalho são menos tensas e mais produtivas; famílias têm laços mais fortes de amor; e as pessoas de um modo geral são menos estressadas, angustiadas e medrosas. Com acolhimento, a bioquímica do corpo se altera gerando bem estar.

 

A grande poetisa brasileira Cora Coralina resumiu bem esse tema num dos seus poemas mais lindos. Ela disse:

“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa do outro mundo. É o que dá sentido à vida”.

Recomendações para você